Desconhecidos – III

Pessoal, desculpa, desculpa! A pessoa é o cúmulo da desorganização. Mas obrigada por todas as mensagens de cobrança, fiquei feliz de saber que vocês gostaram da história e querem mais!!! O pior é que já estava escrito, e a louca aqui só não postou. Enfim… Nossos problemas acabaram.

Para quem não sabe do que eu estou falando, comecei a escrever a correspondência entre dois desconhecidos, lê a parte I e II aqui : Parte I Parte II

Vamos ao que interessa:

São Paulo,

Hoje, voltando para casa, vi uma cena que bagunçou meu dia. Um doido, desses que todo bairro tem, estava discutindo com uma estátua. Não sei dizer como nem porque a discussão começou, quando eu vi já parecia estar no meio.

O homem gritava, xingava, totalmente transtornado. A rua fingia que nada estava acontecendo, mas todo mundo se incomodou de algum modo. Possivelmente ninguém se incomodou tanto quanto eu, ou pelo menos, não pelo mesmo motivo.

O que me angustiou foi a incompreensão da metáfora. Eu não soube dizer se na vida eu sou a louco ou a estátua.

Se estou gritando enquanto a vida continua inerte, cumprindo sua função, ou se eu é que nego os berros do mundo e sigo imóvel, por limitação ou por acreditar que é isso que me cabe.

Eu podia te dizer o que digo às pesquisas do IBGE. No que trabalho, onde moro, quanto ganho.

Podia te dizer a minha idade, falar dos meus móveis, da cor do meu cabelo, mas algo me diz que não é isso que você quer saber.

Posso dizer, e digo, que sou professora, trabalho a maior parte do meu tempo, tenho um gato, mantenho alimentação balanceada e sou uma mulher de estatura e de beleza medianas.

Posso confessar um certo fraco para doces e comédias românticas americanas, e até te confidenciar que meia garrafa de vinho me transforma em outra pessoa. Posso dizer que vejo programas de culinária e tento, sem sucesso, reproduzir as receitas.

Posso dizer que nenhum sapato me parece confortável o suficiente e que tenho cinco pares iguais, só mudando a cor. Que sou boa em algumas coisas, e faço um bolo de cenoura como ninguém, que sei algumas coisas, e outras, desconheço totalmente. Que não faço ideia do que seja química orgânica e não sei direito o que faz o poder legislativo.

Mas sinto que nada disso responde a sua pergunta.

A questão, que ainda não se dissolveu, é a metáfora, que não sei decifrar.

Estátua ou louco?

Não sei. Sigo como desconhecida, desconhecida de mim.

Mariana, amável desconhecida

Faço uso das suas primeiras palavras e peço que não desconfie do amável. Dou preferência aos afetos, que podem não ser a única, mas ainda são ótima opção nesta vida.

Penso que a busca pelo sentido é o sentido, mas dizem que sou lunático demais. Você não é o louco nem a estátua, você é a pergunta.

Me recuso a acreditar que sua aparição tenha sido gratuita.

Eu me equivoquei (e isto é bastante comum). Quero sim, chamá-la desconhecida. E quero, Mariana, conhecê-la pelo desconhecido. Acho que não pode ser mais bonito, mas dizem que sou lunático demais.

Gustavo Sampaio.

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